Nerds assumidos, Alexandre Ottoni e Deive Pazos conquistaram uma legião de fãs e encontraram no seu hobby um caminho para empreender
Deive Pazos e Alexandre Ottoni, do Jovem Nerd: público fiel e formador de opinião ajudou a transformar o lazer em negócio
São Paulo - “Lambda, lambda, lambda, nerds!”. É com esta peculiar
saudação que o “Jovem Nerd”, apresentador de um dos podcasts mais
populares da internet brasileira, saúda seus ouvintes a cada edição do
programa.O Nerdcast, programa em áudio que trata de temas diversos – de eventos históricos a filmes de super-heróis e histórias em quadrinhos, passando por esportes, novelas e até dicas de relacionamento – conquistou uma legião de fieis fãs.
São mais de 100 mil ouvintes, marca impressionante para um programa que circula apenas na internet e que nunca teve qualquer tipo de divulgação além do boca a boca.
Grande parte do sucesso do programa se deve ao carisma da dupla principal de apresentadores, Alexandre Ottoni – o “Jovem Nerd” – e Deive Pazos – também conhecido como “Azaghâl” –, e de seu selecionado time de convidados (em sua maioria, amigos de longa data), que conseguem tratar dos temas mais banais aos mais complexos com bom-humor, dinamismo e trazendo sempre o olhar curioso para o assunto.
Assumidamente “nerds”, Ottoni e Pazos conquistaram os “corações e mentes” de um público que até não tinha nenhum veículo que os representasse tão abertamente.
A fórmula deu tão certo que, embora possa ser baixado gratuitamente, o Nerdcast já foi parar até em barraquinhas de camelôs pelo Brasil afora.
Mas não é só o “mercado paralelo” que enxergou a oportunidade de lucrar com o público nerd. Os próprios criadores do podcast, que começaram tudo como uma brincadeira entre amigos, decidiram transformar o projeto de lazer em negócio.
O site nasceu em 2002 como um blog de humor tratando de temas relacionados ao universo nerd, mas não restrito a ele. Na época, Ottoni e Pazos mantinham empregos regulares – o primeiro como designer e o segundo como administrador –, e dedicavam apenas as horas vagas ao projeto.
Em 2005, o site atraiu a atenção de um grande portal de internet, o iG, que acabou propondo uma parceria aos seus criadores. Além de suporte técnico e espaço de armazenamento para hospedagem do site, o portal ofereceu à dupla visibilidade na sua homepage e a possibilidade de compartilhamento de receitas de publicidade.
“Foi um ponto de virada. Passamos a acreditar que o Jovem Nerd poderia virar um negócio de fato”, conta Ottoni. Mas as coisas não aconteceram tão rápido quanto os empreendedores gostariam.
“Ná época, chegamos a faturar mil dólares com Adsense [programa de publicidade do Google] em um mês, mas era uma receita que não se mantinha sempre no mesmo patamar nem crescia muito além disso”, relembra Pazos.
Foi em 2006, com a estréia do Nerdcast, que a dupla finalmente encontrou sua “mina de ouro”. O programa começou despretensioso, assim como o próprio blog, e até um pouco “desengonçado” (na definição dos próprios criadores), mas logo encontrou um formato vencedor e conquistou uma audiência cativa.
Em pouco tempo, disputava prêmios nacionais e até internacionais, acumulando títulos – entre eles o de “melhor podcast do mundo”. Era hora de começar a ganhar dinheiro de verdade com o negócio.
“A demanda por produtos do site, como uma camiseta que tivesse o nosso mascote, o ‘nerdinho’, veio dos próprios ouvintes”, conta Pazos. “Podíamos ter feito algo simples para colocar no MercadoLivre e pronto, mas queríamos fazer bem feito”, ele relembra.
Depois de muita pesquisa, negociações com fornecedores e parcerias com operadores de meios de pagamento, nascia a Nerdstore. Com três modelos de camiseta e variados itens de colecionador, a loja virtual mostrou seu potencial logo de cara.
“Fizemos um podcast promovendo o livro A Batalha do Apocalipse, escrito pelo nosso amigo Eduardo Spohr. Ele tinha 70 cópias que ganhou como prêmio em um concurso literário, que colocamos à venda na loja. Em menos de 4 horas, vendemos tudo”, conta Pazos.
A experiência deu tão certo que a dupla decidiu produzir um novo lote de 500 cópias. Resultado: todas foram vendidas em menos de duas semanas. A terceira tiragem, de 4 mil cópias, se esgotou em menos de 2 meses. Como resultado, Spohr acabou sendo “descoberto” pela editora Record, que lançou o livro pelo selo Verus.
A loja, que estreou com um estoque de pouco mais de 200 camisetas, hoje chega a fazer encomendas de 8 mil peças em um único mês em datas especiais, como o Natal.
Se no início, os grandes hits eram os modelos que estampavam o orgulho nerd – como a “nerd power”, que trazia uma mão gigante fazendo uma saudação vulcana (se você não é nerd, clique aqui para entender a referência) –, hoje a estratégia é diversificar os produtos para atingir um público mais amplo. “Percebemos que tínhamos que variar nossas ofertas. Hoje temos camisetas com temas relacionados a filmes e seriados, por exemplo”, explica Ottoni.
Mas a Nerdstore é só metade da história de sucesso do Jovem Nerd. O público altamente segmentado e fiel do Nerdcast chamou a atenção de agências de publicidade digital, que viram no programa uma oportunidade de acertar em cheio o público alvo de suas ações.
Grandes marcas como HSBC, Coca-Cola e Sony Pictures e já fizeram ações especialmente voltadas ao público do site. Mas por que nome de peso como estes se interessariam em um público tão específico e restrito?
O segredo está na relação de confiança e fidelidade estabelecida entre o site e seu público.Da mesma forma que consomem os produtos vendidos na Nerdstore com avidez (80% dos clientes que efetuam uma compra voltam a comprar no site outras vezes), os ouvintes do Nerdcast estão sempre dispostos a experimentar aquilo que é recomendado pelos seus ídolos.
“Eles sabem que somos muito rigorosos ao selecionar os nossos patrocinadores. Não anunciamos nenhum produto de qualidade duvidosa. A gente sempre faz questão de testar tudo e muitas vezes já recusamos propostas de anúncio porque o produto não era legal”, explica Pazos.
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