Encerrada a primeira década do século
XXI, a indústria automotiva encontra-se em uma encruzilhada: o automóvel está em
questão como objeto produtor de poluição, como meio de transporte causador de
congestionamentos nos grandes centros urbanos, como artefato associado ao
individualismo e a outras causas anti-sociais.
De fato, o automóvel ainda é o grande
consumidor de combustível não renovável nos dias de hoje. Devido a isso, o
século XXI pode marcar o fim de um determinado modelo de mobilidade, de negócios
e de organização da produção mas, também pode apontar novos caminhos para essa
indústria – o que significa oportunidades de novos negócios e necessidades
inéditas de regulação.
A pressão social e legal por menores
índices de emissão de gases de efeito estufa e por processos de reciclagem
eficientes colocou na agenda a necessidade de desenvolvimento de novas formas de
motorização. Por isso, está em curso um processo sem precedentes de introdução
de novas tecnologias que podem transformar profundamente a dinâmica do setor:
caso a motorização elétrica ganhe espaço significativo, as bases da indústria
podem mudar, colocando pressão e aumentando o risco de sobrevivência para
empresas, negócios e instituições tradicionais do setor. Tanto as fábricas como
os sistemas de geração e abastecimento de energia podem mudar, tornando
obsoletos muitos dos investimentos já realizados.
Mas este processo não afeta somente a
engenharia do ponto de vista do desenvolvimento de motores e materiais. Grandes
cidades dos países em desenvolvimento encontram-se próximas do caos, do ponto de
vista da mobilidade urbana. Coincidentemente, é nestes países que a indústria
automotiva tem crescido.
A questão da mobilidade não será
resolvida somente com carros ambientalmente corretos, mas com políticas
adequadas para nortear, integrar e e incentivar outros meios de locomoção. Há um
novo paradigma tecnológico e de mobilidade em gestação. Ele conviverá com o
anterior durante longo tempo, e isso coloca desafios para cada um dos agentes no
arranjo atual de negócios e de influência no setor – consumidores, empresas,
governo, entidades formadoras de pessoas, órgãos reguladores e certificadores. É
fundamental uma abordagem integrada e negociada para (re)definir o conceito do
produto, os materiais, a motorização e as condições de seu
uso.
No Brasil serão produzidos mais de 3
milhões de veículos em 2010. Mais renda, crédito, capacidade de produção,
estabilidade social, entre os fatores principais, levam à expectativa de que,
antes de 2025, este volume seja dobrado. Mas há escolhas estratégicas a serem
feitas no que diz respeito ao tipo e ao conteúdo do produto que se irá produzir
no Brasil. Respostas a estas questões são bem menos consensuais:
1. Qual será o conceito dos produtos
aqui montados?
Até que ponto estes produtos
acompanharão as tendências tecnológicas mais recentes da indústria nos países
desenvolvidos? Será o Brasil um pólo de projetos e fábricas de produtos
“antigos”, ambientalmente “sujos”, para gerar excedente que financie uma
indústria da mobilidade limpa nos países centrais? Embora atentas às outras
possibilidades de produtos, motorização e novos materiais, as montadoras atuais
tendem a defender a tecnologia atual; sua liderança se dá em um mercado
construído sobre o paradigma anterior. Posições mais arrojadas tendem a ser
exploradas por novos entrantes que, sem comprometimento com o passado,
vislumbram novas oportunidades de negócios. De qualquer forma, o Brasil não pode
ficar à margem dos avanços tecnológicos que começam a reconfigurar o setor
desde já.
2. Há oportunidades para uma inserção
diferenciada de novos negócios/empresas criados no Brasil, no contexto dos
desafios mencionados? Empresas brasileiras são líderes globais em setores como o
aeronáutico, de energia, entre outros. Este é também o único país que não dispõe
de montadoras de veículos de capital nacional dentre os que possuem competências
consolidadas em projeto de produtos e de produção. Competência tecnológica não
parece ser obstáculo; há demanda e base produtiva para sustentar a produção e o
consumo de produtos e serviços. Embora o chamado “apagão” de engenheiros também
afete o setor automotivo, é inegável que a competência da engenharia automotiva
nacional é flagrante e supera a de todos os demais países em desenvolvimento e
certamente a de todos os demais que não possuem montadoras de capital
majoritariamente nacional. Consolidar e ampliar esta competência a partir de uma
estratégia de produtos e mercados que não seja definida unicamente pelas
empresas é uma tarefa inadiável.
Em um setor maduro e estável não cabe
investir em grandes empreendimentos. Mas este não parece ser o caso do setor
automotivo. Justamente por conta da transição que pode levar à ruptura do padrão
tecnológico, cresce a possibilidade (necessidade?) de se pensar a criação de
empresas brasileiras que liderem cadeias de produção voltadas para a exploração
de nichos de mercado globais.
As soluções técnicas, sociais e
políticas capazes de superar a “crise” do automóvel e do seu uso ainda não estão
definidas. A capacidade de compreensão em profundidade das mudanças em curso
levará os variados atores da sociedade a interferir nesse resultado. Por isso,
investidores, governo, instituições de pesquisa e profissionais precisam
avaliar, integradamente, os cenários futuros e assumir posições. Cem anos depois
do seu nascimento, uma nova indústria da mobilidade se avizinha. É necessário
começar a vislumbrar e desenhar o futuro do Brasil neste novo
cenário.
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